quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A Índia que vivi



Hoje vou relatar a experiência que tive ao viver com indianos.
Nunca vi um capítulo da novela das oito que acabou de acabar, mas sei que por causa dela a Índia está na moda.
Também por influência da novela vários livros sobre os indianos surgiram no mercado, e na semana passada acabei de ler um livro sobre a cultura, comida e tradições do segundo país mais populoso do mundo.
Só depois de ler entendi por que os indianos nos tratavam de forma diferente na escola em que estudei na Suíça. Não todos, mas a grande maioria dos indianos hindus considerava nós, os ocidentais, o lixo do mundo.
Havia em torno de 20 indianos estudantes de hotelaria na escola, entre 150 de outras 43 nacionalidades. Assim, eles eram um grupo forte e impenetrável na nossa pequena Torre de Babel.
Para os hindus existem regras de preparo nas refeições. Um estrangeiro comedor de carne de porco e vaca não podia tocar na comida e, como eles achavam a comida da escola impura, cozinhavam nos seus quartos todos os dias.
Eu morava no terceiro andar e um indiano morava logo abaixo de mim. Todo dia ele cozinhava e o aroma de sua comida subia com intensidade.
Os condimentos fortes misturados com cheiro de fritura faziam a gente morrer de vontade de comer aquela comida, mas isso nunca aconteceu é claro.
Havia também no curso uma indiana muçulmana, mais flexível que os demais, mas mesmo assim muito invocada. Era a única que estudava gastronomia.
Um dia, no ramadã, ela estava exausta após uma aula e resolveu que aquele dia ela iria quebrar o jejum e comer carne.
Um silêncio incômodo pairou sobre o ambiente enquanto ela, decidida, resolveu chutar o pau da barraca de vez.
Acreditávamos que o ramadã era cumprido á risca por todos, mas depois caímos na real e percebemos que os muçulmanos são pessoas normais, como nós, diferentes dos radicais que sempre vemos na televisão.
Havíamos cozinhado aquele dia vitela, porco e cordeiro. Os pratos estavam na mesa e ela perguntou qual deles era composto por vitela. O estudante que preparou vitela aquele dia apontou os pratos e disse ainda que estava muito orgulhoso de seus pratos.
Ela escolheu um filé alto ao molho de chocolate e se acabou de comer. Vi que estava um pouco mal passada, mas não falei nada, achei que ela gostasse assim.
Alguns instantes depois o Chef apareceu com as críticas dos pratos realizados naquele dia. A primeira coisa que ele disse é que todas as carnes estavam fora do ponto: a vitela e o cordeiro passado demais e a carne de porco mal passada.
A menina esbugalhou os olhos na hora e o estudante que indicou os pratos de vitela ficou desesperado! A garota havia quebrado o ramadã e comido carne de porco mal passada, alimento que ela não come nem fora do jejum!
Uma pequena briga foi logo apartada pelo pedido de desculpas do estudante que se enganou e tudo voltou ao normal.
Mais tarde, chamei a menina de lado e perguntei se ter comido carne de porco havia valido a pena. Em segredo ela me confessou que sim, que estava delicioso, mas que não podia dizer isso para ninguém.
Alguns indianos, ao final do curso, acabaram se “ocidentalizando” e se tornaram mais acessíveis. Se vestiam como nós, respeitavam nossas culturas e comiam de tudo. Diziam que nunca mais voltariam à Índia, país de que tinham muito orgulho antes de provarem a vida ocidental.
Respeito todos eles, primeiro porque não se pode classificar a tradição e cultura de um povo como certo ou errada e segundo porque adoro comida indiana...

Receita de hoje
Ingredientes
1 xícara de lentilha
2 batatas médias
1 colher pequena de curry
Pimenta-do-reino
Sal
Manteiga
Cozinhe a lentilha e as batatas em água até começarem a desmanchar.
A consistência deve ser de um ensopado bem mole. Adicione mais água se for preciso.
Numa frigideira, frite o curry e a pimenta do reino na manteiga (sinta só o aroma!) e despeje no ensopado. Tempere com sal e sirva com pão.