O Coronel restaurante hamburgueria fechou suas portas no último sábado.
Há três anos, minha esposa Natália, meu irmão Ewerton e eu decidimos abrir um restaurante diferente, estilo casual dinner, que mescla boa comida com descontração. Pensamos num restaurante em que comida de qualidade fosse servida num preço acessível, mas num ambiente informal e alegre.
Assim nasceu o Coronel, a primeira hamburgueria de Mogi das Cruzes.
Pratos caprichados, carnes grelhadas, hambúrgueres de fraldinha moída no dia, praticamente conforme os pedidos para garantir a qualidade da carne.
Sempre tive orgulho da nossa comida. Tinha satisfação em dizer que preparávamos nossos lanches e pratos do zero.
Infelizmente muitos clientes não entenderam nossa proposta e muitas vezes não entenderam a nossa comida. Numa noite de sábado, um cliente pediu um Petit Gateau, deu uma colherada e, com um ar de desprezo, reclamou com a garçonete que o bolinho estava cru, mole por dentro. Como pode tamanha ignorância? Quando a garçonete foi até a cozinha me contar e saber o que fazer, tive que rir pra não chorar. Me orgulhava tanto de preparar o Petit Gateau artesanalmente (posso contar nos dedos de uma mão os restaurantes mogianos que preparam o próprio Petit Gateau), mas aquele cliente me desanimou.
Quando lancei os risottos foi a mesma coisa. Preparávamos o caldo, e na hora do pedido um funcionário não fazia nada a não ser mexer cuidadosamente o arroz arbóreo, que era servido cremoso como todo risotto deve ser.
Várias vezes recebemos reclamações de clientes dizendo que o risotto estava estranho, que não se parecia com o risotto que eles conheciam.
Uma senhora afirmou categoricamente que não sabia o que era aquilo, mas não era risotto. Por fim, descobríamos que as pessoas achavam que risotto era aquele arroz de ontem com ervilha e frango desfiado (assado ontem também). E eu fiquei desanimado com o risotto e retirei do cardápio. É lógico que muitos clientes adoravam o risotto, e muitas vezes voltavam várias vezes para repetir o prato, caso dos amigos Norton, Anísia e filhos, fãs do nosso contestado prato.
No cardápio do ano passado acrescentei um prato regado com molho demi glace. Fazíamos este molho do zero e demorava 10 a 12 horas pra ficar pronto. Era trabalhoso, eu tinha que buscar ossos de vitela em São Paulo, assar, cozinhar, reduzir...e a maioria não dava a mínima importância pro bendito molho. Quem já provou sabe que é delicioso, de sabor intenso, untuoso e combina perfeitamente com carnes. Mas alguns clientes sempre pediam o prato sem o “molho estranho”, “esse negócio diferente”, “isso é doce?”, e assim percebi que não adiantava nada ir até São Paulo comprar os ossos de vitela e ter todo aquele trabalho. Eu queria pelo menos que os clientes provassem, o prato custava apenas R$14, mas fiquei desapontado.
Eu gostava de apresentar novidades aos mogianos. Tenho uma confissao a fazer. Se você gostou, nós que trabalhamos gostamos muito de saber disso. Ficávamos realmente contentes quando um cliente elogiava a decoração, o serviço do garçom ou a comida. Lembro de um dia em que um grupo de dez senhores me chamou para conversar. Quando entrei no salão eles levantaram e bateram palma para mim. Esta é uma lembrança que vou guardar com muita felicidade.
Ah, mas não posso esquecer dos clientes mal educados. Lembro com tristeza de um dia que fui até a sala dos funcionários e vi um garçom chorando sozinho. Perguntei o que tinha acontecido e ele disse que quando foi retirar o prato sujo de um cliente que acabara de comer, o mesmo disse: “pois é moleque, não deixei nenhum resto pra você” e caiu na risada com seus amigos.
Não quero escrever mais nada sobre isso. Entre nós, nunca mais tocamos no assunto. Saibam apenas que isso acontece e que chateia muito.
Assim, resolvi mudar de ares. Vou pra Suíça estudar mais três meses, participar do campeonato suíço de gastronomia e, quando voltar trabalhar com alta gastronomia.
Não vou mentir, estou muito triste porque acabou. Gostaria que não tivesse que fechar as portas. Não queria despedir meus fiéis funcionários, que acabaram virando amigos. Eu era apaixonado pelo Coronel, um sonho que se tornou realidade por algum tempo.
Sei que muita gente gostava do restaurante. Por isso, agradeço aos nossos clientes. Aqueles que voltavam sempre, que voltavam quando podiam, que gostavam de experimentar coisas diferentes, que entravam sorrindo, que entendiam a demora dos nossos pratos, que faziam críticas construtivas, que vinham só comer uma sobremesa antes da balada, que apoiavam, faziam propaganda voluntariamente, que vinham só pra tomar um milk shake, que passavam a noite inteira comendo e bebendo, as famílias, os casais, as turminhas, os grupos de amigos e os que vinham sozinho.
Com vocês no salão e eu na cozinha, tenho certeza que passamos bons momentos juntos sem mesmo nos ver.
Obrigado Coronel. Até algum dia.